A Poesia E O Espírito Da Palavra: Reflexões Teológicas A Partir De Meishu-Sama
Heloisa Helena Guedes
Terror
RESUMO
O objetivo deste artigo é apresentar algumas considerações sobre a poesia, em particular a poesia japonesa, a partir do conceito de “espírito da palavra”, fundamentando-se em Mei-shu-Sama, fundador da Igreja Messiânica Mundial. O texto parte dos fundamentos de seu pensamento para apresentar este conceito, o kototama, e sua força de atuação na linguagem humana e, em especial, na poesia. Meishu-Sama discute o papel da palavra na criação poéti-ca como forma de influir sobre o Cosmos, na medida em que pode contribuir para a harmo-nia ou a desarmonia do Universo, a partir do espírito, ou seja, do sentimento que esta pala-vra carrega.
PALAVRAS–CHAVE: Espírito da palavra, pensamento, poesia, papel da Arte.
ABSTRACT
This paper has the purpose of showing some considerations about poetics, especially Japa-nese’s, departing from the concept of the spirit of the word. It takes Meishu-Sama’s thought to show that concept, the kototama, and its acting power in human language, particularly in poetics. Meishu-Sama, the beginner of World Messianic Church, discuss the word’s role in poetics creation as a mean of to have an influence on the Cosmos, in so far as it can cooper-ate for harmony or disharmony of the Universe, through the spirit, namely, the feeling that each word carries on itself.
KEY-WORDS: Word’s spirit, thought, poetics, Art’s role.
“Poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus, a tomar plena consciência de sua queda, atônito, diante das coisas. Como de alguém que conhe-cesse a alma das coisas, e lutasse para recordar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não sob aquelas formas e aquelas condi-ções, mas de nada mais se recordando”.
Fernando Pessoa
O que é poesia?
Fernando Pessoa (1888-1935), o grande poe
ta por
tuguês,
tem mais a nos falar sobre poesia, definindo-a como “a emoção expressa em ri
tmo, a
través do pensamen
to” (PESSOA, 1972, p.261). E considera como elemen
tos essenciais des
ta ar
te a presença de Sen
timen
to, Cor e Forma.
Já Ma
tsuo Bashô (1644-1694), o maior expoen
te do
haiku, es
tilo carac
terís
tico da poesia japonesa, nos lembra a impor
tância do olhar do poe
ta sobre o momen
to presen
te, para que o poema possa “buscar o e
terno” e “desprezar o banal; deve surgir quase pron
to, como num repen
te, num ímpe
to, num ins
tan
te” (DOURADO, 2003).
Difícil de ser definida, a poesia
talvez possa ser en
tendida como a expressão da alma, dos sen
timen
tos que o mundo faz bro
tar no ser humano a cada ins
tan
te de sua vida: sen
ti-men
tos de delicadeza ou de dureza, de afe
to ou de repulsa, de medo ou de a
tração. O poe
ta é aquele que consegue dar forma à a
tmosfera das almas dos homens, das suas von
tades e pen-samen
tos, e cris
talizá-la no mundo sensível a
través do “espíri
to” de seus versos, ou seja, da energia de suas palavras.
- Essa idéia de que as palavras possuem energia, poder ou força é muito antiga entre as culturas, e aparece associada a ritos religiosos praticados na invocação de bênçãos e prospe-ridade para a terra. Esta utilização estava possivelmente ligada à crença na força espiritual das palavras para atrair situações de sorte ou provocar infortúnios. No caso da cultura japo-nesa, esta crença se faz presente desde os mais antigos períodos da história do país, e foi documentada por livros como o Nihonshoki (TOMITA, 2006, p.306), o segundo mais antigo sobre a história do Japão, compilado no ano de 720. Na tradição judaico-cristã tam-bém encontramos referência a esta idéia no trecho bíblico:
- No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio em Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e nada do que foi feito, foi feito sem ele (João, I, 1-3).
Para Moki
ti Okada, fundador da Igreja Messiânica Mundial (IMM), religião surgida no Japão em 1935 e
trazida para o Brasil em 1955, podemos iden
tificar nes
ta ci
tação, prin-cipalmen
te na expressão “
todas as coisas foram fei
tas por ele”, a ação do “espíri
to da pala-vra” que, na sua essência, é Deus.
Para en
tender melhor es
te concei
to, vamos primeiro
ten
tar conhecer um pouco mais sobre o pensamen
to de Meishu-Sama, nome religioso de Moki
ti Okada, que significa “Se-nhor da Luz”.
A essência que permeia
todo o pensamen
to de Meishu-Sama é a
trilogia Verdade, Bem e Belo.
A Verdade é a vida em perfei
ta harmonia com as Leis da Na
tureza, é o próprio es
tado na
tural das coisas. Por
tan
to, as doenças, a violência social, as crises financeiras e
tc. repre-sen
tam dis
torções da Verdade.
O Bem se manifes
ta a
través de pensamen
tos, sen
timen
tos e a
ti
tudes al
truís
tas, que e-manam amor, misericórdia e desejo de jus
tiça social; num sen
tido mais amplo, expressa um profundo sen
timen
to de dedicação a
toda a humanidade.
O Belo se expressa a
través da Na
tureza e da Ar
te. A Beleza na Ar
te é a manifes
tação da sensibilidade do ar
tis
ta na expressão de seu sen
timen
to a
través da harmonia das formas ou dos sons. O con
ta
to do homem com o Belo eleva seu nível espiri
tual, na medida em que revela seus sen
timen
tos de Verdade e de Bem, aproximando-o da essência da vida, desper-
tando a par
tícula divina que nele exis
te.
Para ele, a Ar
te
tem uma missão no mundo. Es
ta missão consis
te em elevar o nível es-piri
tual do homem a
través do seu con
ta
to com as manifes
tações ar
tís
ticas de nível elevado – “uma Ar
te que, delei
tando a pessoa, eleve o seu sen
timen
to”. É assim que ele vê o Belo co-mo uma das formas de Salvação.
Inestimável
É o som inebriado de Verdade!
Atinge e limpa todos os cantos da Terra.
- Definir o processo da linguagem como uma relação inseparável entre o pensamento e a palavra não é propriamente uma novidade. Vários são os teóricos que falam disto. Vy-gotsky, em “Pensamento e Linguagem”, trata da indissociabilidade entre a constituição do pensamento e a verbalização deste pelos indivíduos, estabelecendo mesmo uma junção entre pensamento e linguagem:
- O significado de uma palavra representa um amálgama tão estreito do pensa-mento e da linguagem, que fica difícil dizer se trata de um fenômeno da fala ou de um fenômeno do pensamento. Uma palavra sem significado é um som vazio; o significado, portanto, é um critério da palavra, seu componente indispensável. Pareceria, então, que o significado poderia ser visto como um fenômeno da fala. Mas, do ponto de vista da Psicologia, o significado de cada palavra é uma gene-ralização ou um conceito. E como as generalizações e os conceitos são inega-velmente atos do pensamento, podemos considerar o significado como um fenô-meno do pensamento. Daí não decorre, entretanto, que o significado pertença formalmente a duas esferas diferentes da vida psíquica. O significado das pala-vras é um fenômeno de pensamento apenas na medida em que o pensamento ga-nha corpo por meio da fala, e só é um fenômeno da fala na medida que esta é li-gada ao pensamento, sendo iluminada por ele. É um fenômeno do pensamento verbal, ou da fala significativa – uma união da palavra e do pensamento (VI-GOTSKY, 1988).
Mas Meishu-Sama
traz uma nova perspec
tiva na abordagem des
te assun
to, na medida em que acrescen
ta um novo elemen
to a esse “amálgama”: o
kototama, o espíri
to da palavra.
O Universo e os seres que nele vivem manifes
tam-se sob dois aspec
tos: o
yang, re-presen
tado pelo ver
tical, e o
yin, pelo horizon
tal. No ser humano, a ver
ticalidade cor-responde ao espíri
to e a horizon
talidade ao corpo. A união espíri
to-ma
téria gera a energia vi
tal, essência da vida. O mesmo princípio es
tá presen
te no vocábulo
kototama , em que
koto (palavra) con
tém a par
tícula
to (parar), e
tama significa “espíri
to”.
Kototama quer dizer, na verdade, “espíri
to que mora, permanece na palavra” (MEISHU-SAMA, 2003b, p.143), por
tan
to, a força, a energia da palavra.
Segundo Meishu-Sama, a
palavra tem origem no
pensamento, que se manifes
ta por seu in
termédio, expressando a
vontade de quem fala ou escreve. Assim, ele apon
ta
três elemen
tos nes
te processo: a von
tade, o pensamen
to e a palavra propriamen
te di
ta, ou seja, o pensamen
to em ação.
Ele acrescen
ta que “na realização do pensamen
to ocorre o discernimen
to do corre
to e do incorre
to, do bem e do mal” (MEISHU-SAMA, 2005, vol. 4, p.53-54) , ou seja, a a
tua-ção da sabedoria. Es
ta vai se
transmi
tir à palavra a
través do que ele chama de “espíri
to da palavra”, o
kototama, impregnando-a de força sin
tonizada com o Bem ou com o Mal. Es
ta força exerce, en
tão, grande influência no mundo pelo fa
to de os sons e as le
tras das palavras emi
tirem vibrações que con
tribuem, de forma decisiva, para a harmonia ou a desarmonia do universo.
Por
tan
to, a emissão de um
kototama harmonioso, bom e belo depende essencialmen
te da alma de quem o
transmi
te; quan
to mais próximo o pensamen
to es
tiver do Bem, maior será a força posi
tiva de
transformação que es
ta palavra exercerá no ambien
te e nas pessoas que a receberem; “dessa forma, o mundo do bem ou do mal, da alegria ou da
tris
teza, do cer
to ou do errado depende do
kototama proferido pelo ser humano” (MEISHU-SAMA, 2005b, p.241).
Em seu ensinamen
to in
ti
tulado “A força da Verdade e a purificação”, ele iden
tifica es-sa dimensão como “reino do espíri
to das palavras” e esclarece que nele ecoam 75 fonemas espiri
tuais, alguns deles inaudíveis para o ser humano. A forma como eles são dispos
tos, a par
tir das palavras u
tilizadas, os aproximam do Bem ou do Mal, o que, por sua vez, aumen
ta ou diminui as impurezas do ambien
te. O espíri
to das palavras ligadas ao Bem são as que es
tão de acordo com a Verdade; “elas ressoam agradavelmen
te aos ouvidos porque pene-
tram a
té a alma, núcleo da consciência humana” (FMO, 1997, p. 23-24).
A par
tir dessa perspec
tiva pode-se en
tender a impor
tância a
tribuída às orações e man-
tras pelas religiões orien
tais: são emissões sonoras que harmonizam os ambien
tes e as pes-soas, em conseqüência da pureza que deixam fluir.
- Seguindo o mesmo princípio, as palavras escritas carregam a energia e a vibração do au-tor, transmitindo ao leitor a sua sintonia espiritual. Meishu-Sama explica que "os textos refle-tem, através das letras, o pensamento da pessoa que os escreveu, o qual é transmitido para o pensamento de quem os lê”. No caso de textos sagrados, ele completa:
- Conseqüentemente tudo aquilo que escrevi guiado pela Vontade Divina irradia a Luz de Deus para o leitor. (...) Assim, quanto mais a pessoa lê, mais aprofunda sua fé, e mais purificado vai ficando o seu espírito.
A par
tir des
te raciocínio, podemos concluir que*
a literatura pode se constituir em um instrumento para a formação de um mundo melhor, assim como a Arte em geral. Nas palavras de Meishu-Sama, “o *Bem é o pensamen
to gerado pela
Verdade e o
Belo é a forma criada pelo
Bem ”.
Em seus ensinamen
tos ele es
tabelece o Belo como uma das colunas de Salvação da hu-manidade, a
tribuindo à Ar
te a missão de “enobrecer os sen
timen
tos do homem e enriquecer-lhe a vida, proporcionando-lhe alegria e sen
tido” (MEISHU-SAMA, 2005a, vol. 5, p. 54).
- A felicidade do homem se realiza na medida de sua salvação, ou seja, quanto mais alto for o seu nível espiritual, maior será o seu grau de felicidade, aqui mesmo nesta vida. Por isso Meishu-Sama utiliza a expressão Paraíso Terrestre para indicar o Mundo Ideal. E para ele, este será o Mundo da Arte, porque esta, na sua essência, satisfaz as condições da Verdade, do Bem e do Belo. E sua valorização e divulgação precisam ser vistas como um dos caminhos capazes de conduzir o ser humano à felicidade.
- O objetivo da Fé é polir a alma e purificar os sentimentos. Existem três manei-ras para conseguirmos isso: pelo sofrimento oriundo não só de abstinência ou penitências, mas também de danos e catástrofes; pela soma de méritos e virtudes e pela elevação da alma por influência da arte de alto nível. Dentre elas, o ca-minho mais rápido é este último. E não existe nada melhor, pois nossa alma vai sendo polida imperceptível e prazerosamente “*(MEISHU-SAMA, 2005a, vol.5, p.86).
Meishu-Sama sempre mos
trou uma afinidade mui
to grande com a Ar
te,
tendo se dedi-cado à caligrafia, à pin
tura, à
ikebana e
também à poesia.
- No decorrer de sua vida, compôs cerca de cinco mil e quinhentos poemas, tendo sido talvez a sua forma de expressão preferida para retratar o cotidiano; a maioria deles faz parte de seu diário, todo ele em formato de poesia, um documento muito precioso para seus se-guidores porque revela seus dois lados, o humano e o divino. Ele não se considerava um poeta; utilizava a poesia como forma de expressão por considerá-la um veículo eficaz para transmitir a essência do seu pensamento, ao mesmo tempo em que se constituía na manifes-tação do Belo, polindo a alma do leitor. Ele confirma isto em um de seus poemas:
A poderosa
Força do kototama nasce da pureza.
Vale, pois, a pena polir sempre a nossa alma.
Abriremos aqui um espaço para comen
tar brevemen
te a ques
tão da
tradução li
terária e suas implicações para a compreensão do pensamen
to do au
tor e de seu es
tilo, já que os
tex
tos de Meishu-Sama consis
tem em
traduções, e que nossa ques
tão cen
tral é a força, a energia do au
tor que impregna as palavras por ele u
tilizadas.
Em que proporção os ex
tremos da
tradução li
teral e da in
terpre
ta
tiva al
teram o origi-nal? Segundo Neide Nagae (2006, p.116), a in
telecção é diferen
te da
tradução, e es
ta apre-sen
ta um nível de dificuldade maior, porque mui
tas vezes fal
tam as palavras exa
tas para expressar o que o au
tor disse: “é um
trabalho de
transposição de elemen
tos cul
turais de um país para o país de língua de chegada”, e no caso da língua japonesa para a por
tuguesa, mui-
tas vezes a dificuldade da equivalência é
tão defini
tiva que o
tradu
tor acaba por
tomar o
termo de emprés
timo.
No caso específico de
tradução de poemas, vamos ouvir Fernando Pessoa, que além de um grande poe
ta, mos
trou-se um “espíri
to indaga
tivo, a
tilado e dialé
tico”, demons
trando suas preocupações es
té
tico-filosóficas em obras em prosa como “Idéias Es
té
ticas”. É des
ta obra a sua definição de que um poema “é uma idéia
transformada em emoção, comunicada a ou
trem por meio de um ri
tmo”, acrescen
tando que es
te ri
tmo é duplo em um só: um verbal ou musical e ou
tro visual ou imagem. A
tradução de um poema deve ser fei
ta buscando a fidelidade absolu
ta à “idéia ou emoção que cons
ti
tui o poema” e ao “ri
tmo verbal em que essa idéia ou emoção es
tá expressa”, o que se cons
ti
tui em um aspec
to a ser cuidadosamen
te observado e ambicionado pelo
tradu
tor.
E nos
tex
tos sagrados? É possível conservar o “espíri
to das palavras” do
tex
to origi-nal? Meishu-Sama in
troduziu duas orações de base na dou
trina messiânica; a primeira delas chama-se
Amatsu Norito e da
ta de uma época que não se pode precisar, mas é preservada como documen
to his
tórico a par
tir do início da Era
Heian (794-1192), Sua linguagem é mui
to an
tiga e sua compreensão
tornou-se difícil
tan
to para os pesquisadores quan
to para as pessoas em geral. Meishu-Sama deixou regis
trada uma jus
tifica
tiva para sua adoção na li-
turgia da IMM: “suas palavras possuem um espíri
to mui
to elevado e uma ação in
tensa,
ten-do o poder de purificar o Céu e a
Terra”. Ela é en
toada em japonês e uma das razões para is
to deve es
tar ligada à dificuldade de compreensão do seu significado, como se expôs acima.
Já a segunda oração acima referida, in
ti
tulada
Zenguen Sandji, foi compos
ta por Meishu-Sama e en
toada pela primeira vez em 1934. Seu con
teúdo expressa a concre
tização do mundo ideal, denominado por ele de Paraíso
Terres
tre, e “ao en
toá-la com vigor, os fiéis fazem eclodir os fonemas do espíri
to da palavra, que ressoarão por
todo o Universo”. A ques
tão do espíri
to da palavra es
tá for
temen
te presen
te no
teor dos vocábulos u
tilizados e
também pelo fa
to de que ela é sempre en
toada em japonês, embora sua
tradução seja dispo-nibilizada aos fiéis. O que se percebe é a preocupação com a manu
tenção da força da pala-vra a par
tir da língua original, que possivelmen
te se al
teraria com a
tradução.
Fica aqui uma ques
tão que deve ser pensada e discu
tida mais amplamen
te, porém não nes
te momen
to, por não caber no obje
tivo do presen
te
trabalho; mas, com cer
teza, em pos
te-rior es
tudo, não se poderá desconsiderar a impor
tância do grau de conhecimen
to e de envol-vimen
to do
tradu
tor com o au
tor e com o assun
to dos
tex
tos a serem
traduzidos, para que se consiga cap
tar es
te espíri
to e expressá-lo harmonicamen
te na
tradução.
- Os poemas de Meishu-Sama são composições em que ele fala da Natureza, dos senti-mentos e também do sagrado. Alguns desses poemas são hoje entoados como salmos, por ocasião dos Cultos; vários deles expressam seu sentimento em épocas de sofrimento; outros, suas emoções, como a alegria e a tristeza, os aborrecimentos e os desejos, comuns a qual-quer ser humano.
Já passei por várias atribulações
Houve momentos em que me vi sob águas escaldantes
E, outras vezes, sobre tênues camadas de gelo.
Diferen
tes formas da poesia japonesa foram u
tilizadas em suas composições. Vale a pena
trazer para o presen
te
tex
to algumas informações e considerações a respei
to des
tas formas poé
ticas, que normalmen
te não fazem par
te do nosso universo li
terário.
Uma delas é o es
tilo
waka, *denominação genérica dada à poesia encontrada nos primeiros escritos japoneses datados do século VII. Uma das formas de *waka é o poema
tanka, compos
to de 31 sílabas poé
ticas (versos de 5-7/ 5-7/ 7 sílabas), que alcançou seu auge en
tre os séculos X e XVI, na vida social dos aris
tocra
tas. Li
teralmen
te
tanka signifi-ca “poema cur
to”, em oposição a
choka, *“poema longo”, outra variação poética do estilo *waka
- A mais antiga coletânea dessa modalidade de poesia japonesa foi compilada no século VIII (743 – 759). Recebeu o título de Man’ yoshu (Miríades de Folhas), composta de 4.516 poemas em 20 volumes, escritos por mais de 400 praticantes, do imperador ao simples camponês. Na interpretação de Meishu-Sama, esta obra revela uma grande verticalidade, ou seja, alta espiritualidade, pela temática lírica refinada e pela expressão de sentimentos no-bres e de caráter religioso, ou seja, de um kototama altamente benéfico. No capítulo V desta coletânea encontramos o seguinte poema:
Foi dito e transmitido, de geração a geração
Que o Yamato , a terra amada por Deus,
é o país onde prospera o espírito da palavra
Ainda hoje a família imperial realiza, no início do ano, uma reunião cerimoniosa, de-nominada
Shin-nen-uta gyotai ou
Uta-gyokai – hajime, em que o imperador, a impera-
triz, os príncipes e as princesas apresen
tam seus
tankas. O povo par
ticipa enviando
tankas fei
tos a par
tir do
tema previamen
te anunciado pelo imperador. Para ilus
trar a im-por
tância do
tanka na his
tória do Japão, lembremos que o Hino Nacional, o
Kimigayo, é um poema
tanka
A grande maioria dos poemas compos
tos por Meishu-Sama segue es
ta forma, o
tanka, que ele
tra
ta, genericamen
te, por
waka.
- Quando foi assegurada a liberdade religiosa no Japão, através da Constituição promul-gada em 1947, e as atividades da IMM puderam ser desenvolvidas oficialmente, Meishu-Sama publicou a "Coletânea de Salmos", editada em julho de 1948, contendo poemas waka que passaram a ser entoados nos cultos em forma de salmos. No prefácio, ele comenta:
- A poesia ‘waka’ tem um poder misterioso. Consegue-se expressar em apenas trinta e uma sílabas o que não se consegue dizer com milhares de palavras. E o seu poder de mover as pessoas, então, é inimaginável. O presente livro reúne poemas que eu próprio escolhi e que, entre outros temas, cantam o sentimento, a moral e a virtude, expressando aquilo que eu sentia na ocasião em que os escre-vi. Como não sou poeta, compus a maioria sem pensar muito, exprimindo-me com naturalidade. Meu único cuidado foi torná-los de fácil compreensão, man-tendo a elegância e a beleza do espírito das palavras.
- Portanto, os poemas compostos em forma de waka são um ponto de apoio da fé para os seus seguidores e, ao mesmo tempo, dão uma imagem viva e real de Meishu-Sama. Os dois poemas que se seguem apresentam uma síntese de seu pensamento, a trilogia Verdade – Bem – Belo e o altruísmo:
A Verdade é o caminho, o Bem é a ação,
o Belo é o sentimento. Desejo ardentemente
que todos os cultivem
É possuindo um caloroso
amor pelo homem que se ama a Deus,
a ponto de se lhe entregar a vida
- O poema abaixo consta da coletânea Yama to Mizu (Montanha e Água), publicada em 1949, e nos fala da sensibilidade de Meishu-Sama na busca da essência da natureza de forma simples, sutil e artística:
A flor de lilás contempla
Suas largas folhas caídas,
Rolando, ao sabor do vento.
A es
trofe superior do poema
waka deu origem ao
haikai, poema de 17 sílabas poé
ticas, dis
tribuídas em 5-7-5 sílabas, que possuía, a princípio, cará
ter sa
tírico e humorís
ti-co. Pos
teriormen
te, es
ta forma foi perdendo o
tom cômico a
té
transformar-se no a
tual
haiku, regis
trado a par
tir do século XVII, e que no Brasil é conhecido como
haicai.
O
haiku é uma forma de poesia que re
toma a harmonia da filosofia e do simbolismo
taoís
tas, que expressam suas idéias na forma de mi
tos, paradoxos e imagens poé
ticas, na
ten
ta
tiva de
transcender a limi
tação impos
ta pela linguagem usual.
- Da mesma maneira que a meditação, os versos do haiku nos fazem voltar a atenção e a consciência para o momento presente. Na meditação tradicional, sentada, a atenção está na respiração. No haiku ela volta-se para a natureza, enquanto que o mundo do poema waka são os sentimentos humanos. Trata-se, portanto, de meditação na ação. Seu formato de pe-queno poema relaciona-se com a busca da essência do momento expressa de forma compacta, revivendo ou saboreando as impressões rápidas e fugazes do instante cristalizado e valorizan-do as cores, a natureza e o elemento surpresa. Estes elementos podem ser encontrados neste poema de Bashô, que Meishu-Sama considera um dos melhores:
O canto das cigarras
penetra no silêncio
e nas rochas.
Meishu-Sama aplica a esse poema a expressão “o saber das coisas”,
mono o shiru em japonês, que ele define como “experimen
tar ilimi
tadamen
te
tudo o que exis
te no mundo, pene
trar, cap
tar a essência das coisas e exprimi-la de alguma forma”. Ele considera que poe-mas como esse aprimoram o gos
to es
té
tico de quem lê e desper
tam seus bons sen
timen
tos.
Na sociedade japonesa, mui
to da vida prá
tica do povo é man
tido de acordo com os ri
tmos maiores da na
tureza, chamados “mandamen
tos sazonais”, um conjun
to de regras e regulamen
tos que de
talham quais ações devem ser realizadas em de
terminadas épocas do ano. Freqüen
temen
te, as da
tas de en
trada e saída das es
tações configuravam-se mais impor-
tan
tes a
té do que a própria
tempera
tura na decisão do momen
to corre
to de se acender o for-no (NEVILLE, 2005, p. 88-89). Por isso, an
tigamen
te, a cada mudança de es
tação, mudava-se o jogo de pra
tos que era servido à mesa, as pin
turas e
tecidos que faziam par
te da decora-ção da casa, os quimonos das mulheres, os arranjos florais. As es
tações, com sua
tempera
tu-ra, pássaros, cores e flores carac
terís
ticos en
travam pelas grandes janelas e por
tas de correr da casa japonesa. O que es
tava den
tro in
tegrava-se ao que es
tava fora, no jardim. Foi para
tes
temunhar is
to que o
haiku surgiu por vol
ta do séc XV.
- O haiku apresenta algumas variações. Uma delas é o kanku, uma composição assim descrita no livro “Luz do Oriente”:
- Trata-se de um jogo de palavras onde só é determinado o primeiro verso, e as pessoas têm de completar os dois seguintes, para competir nas habilidades de agilidade mental e humor. Existe, ainda, o toku, no qual se determina o último verso. Oficialmente, esses dois tipos de poemas são denominados kantoku; entre-tanto, parece que, popularmente, quando se fala em kanku, subentendem-se as duas formas.
- Meishu-Sama criou, em setembro de 1930, a “Associação Ten’nin*”, que promo-via sessões de poesia *kanku humorística, dirigidas por ele mesmo. O objetivo era de criar e apresentar composições que, expressando a situação social da época de forma bastante irônica, ou com um pouco de humor, fizessem as pessoas se desligar por completo do ambi-ente conturbado da sociedade e encher de gargalhadas as reuniões. . Dessa forma, a “Asso-ciação Ten’nin*” era a melhor expressão do temperamento alegre de Meishu-Sama. Sele-cionou algumas das composições desta época e publicou-as com o nome de *Warai no izu-mi, em português, “Fonte do riso”, vinte anos depois, em janeiro de 1951. No prefácio, ele esclarece o objetivo da publicação:
O que será que a sociedade japonesa da atualidade, ou seja, os japoneses estão realmente necessitando? As pessoas conscientes poderão dizer que é o riso.
- Podemos dizer que a nossa sociedade encontra-se num estado infernal, uma vez que o povo sofre com impostos, falta de alimento, alto preço das mercadorias, dificuldades financeiras, aumento de crimes, doenças incontáveis, etc.
(...)
É melhor esquecer, com uma explosão de risadas, essa atmosfera sombria e tris-te. A publicação do presente livro tem esse objetivo. Portanto, senhores leitores, leiam uma vez e riam bastante! Leiam três vezes e façam uma pândega! Riam, riam! Riam muito e construam o Paraíso! Pois dizem que as risadas são as flores do Paraíso!
- Podemos observar seu temperamento brincalhão neste poema:
Tencionava compor
Um poema sobre a geada.
Dorminhoco que sou,
Quando acordei,
Nem vestígios encontrei.
Os dois es
tilos da poesia
waka,
tan
to o
kanku, principalmen
te na variação humorís
tica, quan
to o
tanka foram mui
to u
tilizados por Meishu-Sama como ins
trumen
tos de expansão na sua obra religiosa. O primeiro para
trazer à vida das pessoas a alegria e a espon
taneidade que o co
tidiano às vezes sub
traia, principalmen
te no Japão dos
tempos da Segunda Guerra Mundial; o segundo porque, além de possuir, na sua opinião, um grande poder de “mover as pessoas”, revela a in
timidade e a afinidade que Meishu-Sama possuía com sua forma, mos
trando-se um veículo mui
to agradável e eficaz para regis
trar seu pensamen
to e suas experiências.
Além desse cará
ter u
tili
tário da poesia den
tro de sua obra religiosa, não se deve esquecer de que, na sua concepção, a Ar
te, de forma geral, incluindo aí a poesia, é o caminho mais rá-pido para se polir a alma. É o que se chamaria, em japonês, de
do, ou seja, o caminho espi-ri
tual, e que Meishu-Sama chama de
dori, o caminho perfei
to, que, em úl
tima ins
tância, é Deus.
A palavra,
tan
to falada como escri
ta, se cons
ti
tui para Meishu-Sama, como foi vis
to, na ação concre
tizadora da von
tade e do pensamen
to. Mas seu enfoque principal, ao desenvolver es
te concei
to, é in
troduzir um ou
tro elemen
to: o espíri
to da palavra.
Es
te concei
to es
tá no cen
tro de sua dou
trina, na medida em que a palavra é o meio a
tra-vés do qual o ser humano se relaciona com o Cosmos. Ela pode se cons
ti
tuir, ou não, na mani-fes
tação da Verdade e do Bem, pilares da harmonia do Universo, e adquirir a forma do Belo, cumprindo assim a missão de con
tribuir para o equilíbrio do ambien
te em que vivemos.
Den
tre as formas de Ar
te, focalizamos aqui a poesia, bas
tan
te u
tilizada por Meishu-Sama como expressão do Belo, a
través de composições
tan
to de
temá
tica religiosa como co
ti-diana, passando inclusive pela poesia humorís
tica, es
tilo que recebe dele um olhar no mínimo inusi
tado, se pensarmos na impor
tância e finalidade a ela a
tribuídas por um líder religioso. Mas is
to pode es
tar nos revelando o lado humano de quem sabe como é difícil pra
ticar o Bem num mundo nem sempre
tão bom.
Ficou aqui regis
trada a ques
tão das dificuldades implíci
tas na
tradução li
terária, e em par
ticular da poesia, principalmen
te no que diz respei
to à fidelidade de sen
timen
tos, emoções e do “espíri
to” dos versos, em especial de
tex
tos sagrados.
Exis
tem ou
tros aspec
tos que poderiam ser analisados a par
tir des
te
tema nas obras de Meishu-Sama, aplicando-se o concei
to do “espíri
to da palavra” às caligrafias ou a
tex
tos em prosa. O que se apresen
tou nesse
trabalho é apenas par
te das possibilidades de abordagem des
te assun
to à luz do seu pensamen
to.
DOURADO, Gus
tavo. Haicai alma da poesia*.*
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